Estrangeiros que vêm para fazer negócios, turismo e, cada vez mais, para morar estão injetando uma nova energia no litoral nordestino.

O Nordeste brasileiro encontrou sua vocação: a de ser o paraíso tropical onde europeus gastam e investem seus euros. Portugueses, espanhóis, franceses, italianos, alemães e escandinavos estão invadindo a região para fazer negócios, passar as férias ou para desfrutar a aposentadoria num clima agradável e preços mais em conta do que os europeus. O movimento possui duas vertentes. A primeira é o avanço do turismo residencial. Alguns milhares de estrangeiros estão comprando apartamentos e casas do lado de cá do Atlântico – para veraneio ou mesmo para morar em definitivo. No Ceará, três de cada dez imóveis novos com valor acima de 50.000 reais são adquiridos por estrangeiros. No Rio Grande do Norte, os europeus compraram 40% das casas e apartamentos novos vendidos no último ano.  

A outra vertente da invasão é a explosão de investimentos de empresas européias nos setores hoteleiro, turístico e imobiliário do Nordeste. No litoral baiano, sete complexos turísticos erguidos com capital europeu estarão concluídos nos próximos dois anos. Outros 28 empreendimentos de médio e grande portes devem ser inaugurados por grupos estrangeiros até 2010 no litoral potiguar. Os investimentos europeus em novos hotéis, resorts e condomínios previstos para os próximos cinco anos no Nordeste ultrapassam 4 bilhões de reais, o equivalente a 8% do que o Brasil recebeu em investimento estrangeiro em todos os setores da economia no ano passado.

Ambas as levas de recém-chegados – a empresarial e a de novos moradores – são o resultado do mesmo fenômeno, o aumento no fluxo de turistas europeus na região. Desde a década de 90, na Bahia, no Ceará e no Rio Grande do Norte, por exemplo, quadruplicou o número de visitantes estrangeiros no Nordeste. A movimentação chamou a atenção de empreiteiras e grupos hoteleiros europeus, que vieram construir a infra-estrutura necessária para atender os próprios conterrâneos em território brasileiro. "A Europa é um mercado imenso, e o interesse pelo Brasil está crescendo cada vez mais", diz José Antonio Correia, do grupo português DDC, que está construindo um complexo residencial com treze torres de apartamentos e 192 lotes de casas no município de Eusébio, no Ceará.

No Nordeste, os turistas de hoje são os imigrantes de amanhã. Grande parte dos estrangeiros que adquirem casas no litoral nordestino é de visitantes que vieram para passear e acabaram se encantando com o estilo de vida, a paisagem e o clima local. "Eles compram residências porque querem passar mais tempo no Brasil", comenta o secretário de Turismo do Ceará, Allan Aguiar. "Muitos deles fazem isso por ter se aposentado ou porque querem abrir um pequeno negócio por aqui." Recém-aposentado em seu país, o suíço Marc Dizerens construiu com um sócio francês o condomínio Baía Dourada, no sul da Bahia. Metade dos lotes já foi vendida, todos para estrangeiros.

Sempre se acreditou que o turismo é uma vocação natural não só do Nordeste, como de todo o Brasil. O país tem paisagens variadas, 2.000 praias e clima ameno. O problema é que, apesar disso tudo, recebemos por ano um número de visitantes menor que o do Museu do Louvre, em Paris, ou o da minúscula Cingapura, na Ásia. Se o Nordeste está finalmente fazendo jus a sua vocação, é porque nos últimos dez anos começou a resolver alguns problemas de infra-estrutura que atrapalham o turismo. Nesse período, estradas novas ou reformadas e obras de saneamento básico permitiram a construção de condomínios e resorts em praias distantes das capitais. Também houve um esforço na formação de mão-de-obra qualificada. Todos os alunos do curso de culinária do Hotel-Escola do Senac em Natal já saem com emprego garantido. A providência de impacto mais imediato no turismo foi a ampliação de sete aeroportos da região. As melhorias possibilitaram o aumento do número de vôos internacionais regulares e fretados. Os aeroportos de Salvador, Natal e Fortaleza recebem, juntos, 105 vôos internacionais por semana provenientes da Europa, o dobro do que recebiam em 2003. Como muitos deles são vôos diretos, um europeu que na década passada gastava mais de doze horas para chegar ao Nordeste, fazendo conexões em São Paulo e no Rio de Janeiro, pode hoje decolar de Lisboa e pousar no Nordeste seis horas depois.

Junte a maior facilidade para cruzar o Atlântico aos preços baixos, para os padrões europeus, das diárias de hotel no Brasil e tem-se os elementos básicos para inundar a região com turistas do Velho Mundo. "Um europeu que passa férias no Nordeste gasta menos do que gastaria por um período igual em Mallorca, na Espanha, ou no Algarve, ao sul de Portugal", diz Marília Cecília Bodas, diretora da Lugares no Brasil, uma imobiliária com sede em Lisboa que vende imóveis brasileiros a europeus. Ao chegar ao Brasil, a simples conversão de euros para reais quase triplica o poder aquisitivo dos estrangeiros. O valor do dinheiro é um forte argumento na hora em que um europeu decide comprar uma casa de veraneio ou recomeçar a vida no Brasil, em geral abrindo uma pousada ou restaurante. "Aqui, posso sair para comer todo dia em um restaurante diferente, um luxo para os padrões da França", comenta o aposentado Xavier Huvelin, francês de 68 anos que abriu uma pousada em Porto de Galinhas, em Pernambuco.

Pelo valor que pagaria por um apartamento de 100 metros quadrados em Madri, um aposentado espanhol pode comprar duas coberturas com quatro suítes de frente para o mar em João Pessoa, na Paraíba. "Europeus de classe média baixa que vivem espremidos em minúsculos imóveis na periferia em seu país ficam encantados em poder comprar casas amplas, a poucos metros da praia, em um lugar onde há sol na maior parte do ano e onde todas as semanas passa um pescador oferecendo lagosta a 17 reais o quilo", diz o corretor de imóveis cearense Arnaldo Jorge Vidal, que nos últimos quatro anos se especializou em vender casas a portugueses em Fortaleza.

Foi a combinação de qualidade e baixo custo de vida que motivou os portugueses Nelson Baldaia, de 64 anos, e sua mulher, Otilia, de 61, a comprar uma casa na Praia de Águas Belas, na cidade de Cascavel, a 60 quilômetros de Fortaleza, quatro anos atrás. Como já estavam aposentados, no início passavam metade do ano no Brasil e metade em Portugal. "Agora que obtivemos o visto de residência permanente, decidimos nos mudar de vez para cá", conta Nelson. Aos poucos, os amigos que vinham visitá-los ou que ouviam suas histórias sobre o mar limpo e quente, a areia branquinha da praia, também começaram a adquirir casas no lugar. "Hoje estamos rodeados de dezenas de conterrâneos amigos. Até meu médico comprou uma residência perto da nossa", diz Nelson. Os portugueses que adquirem imóveis no Ceará recebem em média 1.500 euros de aposentadoria por mês. Isso equivale a perto de 8.000 reais por casal, um bom dinheiro para os padrões do Ceará. Nos últimos três anos, o número de portugueses morando no estado aumentou 60%.

De acordo com a Embratur, 5,4% dos turistas estrangeiros que vêm para o Brasil ficam em casa própria. Há cinco anos, esse número era tão inexpressivo que nem aparecia nas estatísticas oficiais. Outros 24% vêm para ficar hospedados com amigos ou parentes. O casal norueguês Thomas Lindgard, de 31 anos, e Cathrine Rystad, de 28, veio pela primeira vez ao Brasil para ficar com a filha Marianne, de 15 meses, na casa que um colega de Thomas mantém na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte. "A beleza da região e a cordialidade das pessoas foram uma boa surpresa para nós. Pretendemos voltar ao Brasil outras vezes", diz Cathrine. A compra de imóveis por estrangeiros tem pelo menos três efeitos benéficos no Nordeste. O primeiro é a criação de novos empregos. Estima-se que cada estrangeiro que estabelece vínculos na região gere, no mínimo, um novo posto de trabalho fixo. O segundo efeito é a fidelização dos turistas. Com uma casa no Brasil, a freqüência das visitas aumenta. A terceira vantagem é a mudança no perfil dos turistas. "Os estrangeiros que vêm para se hospedar em um resort de luxo ou compram casas de praia têm bom poder aquisitivo e gastam mais", diz Nelson Freire, secretário de Turismo do Rio Grande do Norte. A nova leva de turistas inclui famílias, recém-casados e idosos, grupos bem diferentes das hordas de homens que procuram o Brasil para fazer turismo sexual – e, por vários motivos, é muito mais bem-vinda.


Fonte: Revista Veja


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